Eu Sou Aquela

Eu Sou Aquela - EuGordinha Romance

O tempo passa pra todo mundo. Não posso negar que também está passando pra mim. O meu corpo não é o mesmo de antes, nem mesmo é o mesmo de antes de ontem. Ainda me esvaio em sangue vem ou outra. Esse costume das mulheres não me deixa. Sei que meu corpo se refaz a todo tempo. Meus cabelos soltos pelo chão, indo com as águas do banho pelo ralo, meus cabelos me dizem isso. Esse meu rosto no espelho me diz. Maquiagem nenhum vai ocultar defeito algum. Meu rosto maduro não é defeituoso. Os dois olhos, o nariz e a boca, as sobrancelhas, orelhas, cabelos, ainda me ornam a face. Minhas rugas são o tempo desenhando em mim sua paisagem. Eu sou aquela que fica enquanto os outros vão embora. Eu sou aquela que queima e arde. Eu sou a vela da meditação no silêncio da tarde, quando as crianças estão na escola e o tédio seduz pra que a televisão seja ligada e esconda um pouco dessa minha solidão tão cheia de nada. Eu sou aquela que grita em silêncio, que pensa em poesias não escritas. Eu sou aquela cujo desejo ainda arde mais profundamente do que a chama da vela acesa para meditar. Mas hoje eu não quero mindfullness, não quero yoga, não quero pompuarismo. O tempo me diz que a minha vida é finitamente eterna nessa porção de seu leito de rio no qual me deito, mergulho e me levanto límpida. Eu sou aquela que se lava nas águas do tempo. Nenhum viés do tempo ficará em mim, não mesmo. Eu vou ser um agora permanente. Pode parecer até que estou bêbada, pra quem não me conhece nesse outro lado. Mas se bebi foi só um pouco, a bebida das palavras de outra mulher mais forte do que eu… inclusive, ela não mais existe no corpo habitado. Hoje ela habita minha alma, meus pensamentos, meu caminho de aprendizagem. Ela é parte de mim da mesma forma que eu bebo um pouco d’água e quando engulo a água, ela já faz parte de mim. Quem me olha nos olhos quando passo e ao mesmo tempo me sente, mesmo sem saber quem eu sou, essa pessoa me tem também dentro de si mesmo que não saiba o que vai fazer comigo após esse fortuito encontro. Ah meu Deus eu preciso ver o mar… o mar me completa, sua maioridade me redime, sua imensidão me conforta. O mar é mais bondoso que o céu. A grandiosidade do céu me oprime, só me faz tremendo bem de fato quando é noite. Faíscam as estrelas e me dizem que também sou parte delas, poeira galáctica, pó de giz da escrita divina, incorporada numa mulher matéria viva. O céu me engole viva quando é dia e não chove, quando o sol queima a minha pele e não me possui. Hoje eu queria ter um homem que me tivesse inteira. Não digo um homem que me levasse pra cama e fizesse sexo comigo. Eu não quero sexo, quero um outro orgasmo maior. Eu queria ter agora um homem que me possuísse com seus olhos, que viesse e não dissesse nada que eu queira ouvir, não dissesse coisa nenhuma. Que me olhasse apenas e me despisse. Eu queria ver esse homem nu, pra saber que os nossos desejos se combinam, Yin e Yang. Combinação das existências no Universo. Tem vez que tudo fica tão claro pra mim. Momentos de extrema lucidez. Parece uma loucura, mas na verdade a loucura mesmo parece ser a maioria das vezes nas quais não estou assim tão em contato comigo mesma. O meu desejo ainda arde, chama de vela. Enquanto eu estiver viva vou sempre estar desejando alguma coisa, uma vontade louca de transcender… morrer, talvez e ver que do outro lado eu só vou estar saindo de um outro útero no qual sou gerada. Aliso meu rosto diante do espelho, meu reflexo me diz que o tempo tem sido generoso comigo, ainda sou uma mulher tão linda e percebo isso tão pouco. Preciso de uma paixão que me relembre disso todos os dias. Preciso viver um pouco mais do que tem sido…

(Trecho de um desabafo no diário de Nair)

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Das Verdades

diario de gaia -EuGordinha

Do Diário de Gaia:

Viver tem vezes que dói sem explicação. Nenhum espinho na ponta dos dedos, nenhum arranhão nos joelhos. Nenhuma queda, nenhum golpe de traição, nenhuma mentira decepcionadora e no entanto, a dor. Uma dor sem justificativa, um incômodo aparentemente sem motivo. Recentemente descobri que essa dor, esse incômodo, pode ser chamado de angústia e não precisamos estar doentes para que a angústia seja o sintoma. Basta existir para se estar vulnerável a isso. Como se resolve? Existindo. Viver pode acontecer em dois níveis de existência. No primeiro, qualquer ser que esteja vivo já está. Plantas, bactérias, animais de todos os tipos, incluindo os humanos, todos os organismos vivos existem de certa forma… mas, é possível existir com um componente a mais de existência… um propósito, um sentido, um preenchimento que faz com que a angústia em si perca sentido. Será que eu preciso definir melhor o que pode ser a angústia, para que possa ser melhor percebida? É como se tudo na vida estivesse certinho, mas ainda assim sente-se uma sensação de vazio, uma falta de algo que não conseguimos ao certo identificar, uma sensação de não pertencimento a lugares ou pessoas. Algo faz falta e causa uma emoção que… não posso dizer que seja ruim de todo, pois sem ela não nos daríamos conta de que viver pode ser mais, pode ser além de só acordar de manhã, se arrumar, tomar café, estudar trabalhar fazer as coisas, navegar na internet vendo todo tipo de coisas, interagir com conhecidos e anônimos, fazer coisas “normais” da vida, até chegar a hora de dormir… viver pode ser mais. Viver pode ir além de ficar procurando com o que se alegrar, como quem caça a felicidade, a alegria tão necessária à vida. Viver pode ser mais do que tem sido. A angústia é a causadora dessa certeza. Ela pode ser a motivadora da dor e do sofrimento sem motivo aparente ou pode ser a propulsora de uma busca por sentido e consequente descoberta de um novo nível na vida. O nível do propósito, do existir compromissado, onde cada hora e minuto estão cheios do que antes era só viver, mas agora é vida.

Fogo

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fogo - trecho do romance eugordinha

– Não dá pra fazer sexo direito. É isso!

– Como assim não dá? Eu tenho feito muito bem.

– Sandra, você é diferente.

– Sou tão gorda quanto você, Nair. O que meu corpo faz o teu também pode fazer se você quiser.

– Não é questão de querer apenas. Eu quero, mas… você não entende, é muito complicado dizer… O Fred tem me tocado de um modo diferente. Não está mais o mesmo rapaz que eu conheci antes, entende?

– Entendo que esse rapaz ai já esperou um tempão e está querendo te comer, já não era sem tempo. Eu não te falei que desconfiava que ele era gay? Kkkkk

– Estou falando sério, Sandra. Ele não tem sido mais o mesmo. Estou começando a ficar muito assustada e desconfortável com ele. Na última noite que saímos pra ir no cinema, enquanto estávamos no escuro, foi tão gostoso sentir que a mão dele se apoiava em meu joelho e aos poucos foi apertando. Olhei pra o lado e os olhos dele estavam fixos na tela vendo o filme. Nesse momento eu já nem queria mais saber de filme algum. O aperto em meu joelho falava mais alto. Ai conforme voltei meu olhar pra tela, tentando me distrair, acompanhando a história, a mão dele deslizou para minha coxa.

– E ai?

– Gelei. Ele deve ter notado, pois a mão voltou pra meu joelho. Senti meu corpo todo contraindo como se eu quisesse me levantar correndo daqui e fugir daquele homem. Tive medo. Mas ele não estava fazendo nada demais, eu sei. O meu corpo é que não sabia nada e reagia estranho. Não demorou muito tempo ele deslizou a mão pra minha coxa novamente mas dessa vez o fez puxando um pouco o vestido, de modo que sua mão estava em minha pele… a mão dele tão quentinha, me fez senti que eu estava mais fria do que o ar condicionado naquela sala de cinema.

– E o que mais ?

[…]

A Novidade do Dia

Eu queria que tantas coisas na minha vida fossem diferentes do que são. Mas às vezes me parece que é quase impossível muda-las. Gaia me disse que eu posso mudar muito na minha vida, até chegar ao ponto de não me reconhecer mais como era… bem, no momento ainda sou. Daqui a um tempo se eu conseguir fazer conforme ela disse eu serei uma outra eu, de tal modo que a eu que sou hoje já não será mais. Pois então… quero sim vira uma outra mulher diferente da que tenho sido. Pois tenho me deparado com tantas coisas ruins por dentro. Tem muito lixo acumulado aqui dentro, coisas que eu já deveria ter jogado fora a muito tempo e que no entanto fico revendo como se fosse me trazer algum resultado diferente do de sempre: dor, ressentimento. Preciso mudar. Pelo menos isso eu sei. Tenho de trazer à tona uma porção de coisas boas que eu quero que aconteçam. Já sei que não estou só nessa luta. Acho que isso ajuda bastante. Mesmo sem saber ao certo por onde começar, hoje eu sei que vai ser um dia desses, onde alguma novidade acontece e eu tiro proveito dela… quer dizer, Gaia também me advertiu disso: “Não espere que algo novo aconteça, faça você mesmo a novidade do dia.” Que assim seja.

Espelhos – Gaia

Lembro que já tive muitos espelhos ao longo da vida. De variadas molduras, formas e tamanhos. Desdes os que cabiam na palma da minha mão e eu os levava na bolsa para eventuais checagens de como eu estava, com que cara, com que humor, com que maquiagem ainda feita ou desfeita por alguma lágrima imprevista. Eu já tive muitas faces ao longo desses 40 e tantos anos. Já fui muitas de mim e a cada dia os espelhos estiveram já emoldurando o meu rosto. Houve um momento no qual eu me olhei e pensei comigo mesma uma ideia que se tornou uma das minhas mais valiosas verdade. Eu disse pra mim mesma: – Olhe-se no espelho e tente ver não o que disseram pra ti sobre você, mas o que você mesma acha de si, sem os resquícios de tudo o que sabe de ti pelos olhares dos outros. Não anotei o dia em que essa revelação me aconteceu, mas sei que foi a partir dela que eu passei a me redescobrir um pouco mais.

Gaia
[trecho do romance EuGordinha]Espelhos - Leoladis

Caminhando

Caminhando - EuGordinha Romance

Estávamos caminhando. Então ele me disse: Repara no que eu vou fazer contigo. Então passou o dedo indicador no meu queixo e levantou meu rosto. Por instinto eu levantei meu rosto já olhando no dele, pra ver o que é que ele queria me mostrar. Só vi um sorriso em silêncio. Daí me explicou: Agora podemos continuar seguindo. Mas olhe pra frente. Quando acontecer de você ficar triste e perceber que está cabisbaixa olhando para o chão enquanto anda, lembra do que eu acabei de fazer contigo. Se preciso for passe o dedo no queixo como se fosse um ritual, trazendo à memória que você não perdeu nada no chão pra ficar olhando pra ele enquanto anda. Haverá momentos nos quais não haverá ninguém por perto pra te passar o dedo no queixo e então você vai precisar lembrar de fazer isso por si mesma. (Nair)

Um Outro Orgasmo

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OLYMPUS DIGITAL CAMERANão tinha ninguém em casa além de mim. Quando acontecia isso eu aproveitava pra ter todo o espaço só meu. Seria assim por todo final de semana. Pus meu cd predileto pra tocar e fiquei curtindo as canções cujas letras eu já tinha decorado. Foi assim por horas. Depois do almoço foi me batendo um sono. Final de semana é feito pra descanso quando você dá duro todos os dias da semana. Troquei a música agitadinha por algo mais suave, quase romântica. Dormi. Acordei quando o sol estava se pondo, escurecendo a casa e mesmo só e feliz ainda tinha algo me incomodando, pedrinha no sapato. Parecia me faltar alguma coisa que eu não sabia o que era. Lembrei das barras de chocolate na geladeira. Nada demais, apenas um docinho prazeroso pra quando me desse vontade. Não era aquilo, ainda. Então desliguei o rádio e a música parou de tocar. Silêncio. Meu Deus, que leveza era aquela? Senti o meu rosto sorrindo como a gente sente o corpo ao trocar de roupa em dia frio. Aquela era a medida exata da vida cabendo dentro de mim. A minha alegria tinha um encontro de corpos com a paz, mas isso, dentro de mim. É bom se perceber por dentro. Muitas pessoas não sabem que isso é possível, muitos não fazem por falta de conhecimento; outros sabem mas ficam com medo do que podem descobrir, medo de sofrer com questões mal resolvidas. Mas eu estava num êxtase gostoso. A alegria e a paz num abraço de corpos nus. Um prazer muito próximo ao orgasmo… sim, sem exagero algum, sem querer diminuir um ou aumentar o outro. Sabia que a vida proporciona uma porção de prazeres dentro dela? Existem vários níveis de profundidade no prazer que se experimenta na vida… sexualmente, por exemplo, existe o kama sutra como possibilidade de alcançar sensações, mas também existe o Tantra onde a busca parte pra dentro de nós. Isso em se tratando de sexualidade, um dos prazeres mais intensos e superficiais que as pessoas normalmente conhecem. Por isso exemplifiquei o prazer que eu sentia em minha solidão e silêncio com um orgasmo. Meu Deus, que delícia… e em pensar que a um tempo atrás, solidão e silêncio eram a minha angústia.

Dos Silêncios

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Dos Silêncios - EuGordinha

Trecho do diário de Alice: “Com o tempo a gente compreende que um diálogo também é feito de silêncios e o que a gente não deve se sentir “obrigado” a estar falando o tempo todo como se interação fosse apenas isso. Não, não, a interação de um diálogo também suporta os silêncios. Como pausas na música. Todo mundo que sabe um pouco de música sabe que ela não é feita apenas de notas musicais, mas também da pausa que há entre elas. O silêncio também embeleza a música que ouvimos, faz parte da sua essência. É em silêncio que os pensamentos são formados, por mais barulhenta que seja a alma de qualquer pessoa que pense. Quando num relacionamento, num diálogo houver o silêncio, cabe a quem diz e a quem ouve respeitar esses momentos sob risco de perderem algo precioso. Querer que o outro esteja dizendo algo o tempo todo é meio parecido com o ter medo de estar só. De que vale uma pessoa que está comigo e fica o tempo inteiro calada? Não, não chega a ser isso… mas de que vale ter alguém com quem numa conversa o silêncio seja uma pausa mais longa do que a minha ansiedade pode suportar? Eu acho que a questão está mais ou menos por aqui… nas nossas ansiedades e expectativas. Quantas vezes entramos num relacionamento tão esperançosos de que o outro venha e mate todas as nossas dores, supra todas as nossas necessidades? É preciso dar ao outro a chance de estar em silêncio numa conversa consigo mesmo, escolhendo as palavras como quem colhe frutos… às vezes não há frutos, mas o outro se esforça em plantar a semente e esperar que ela cresça. Clarice Lispector certa vez disse que “estar também é dar”. O estar por perto, mesmo que seja por telefone,  às vezes um pouco mudo, é um modo de se dar para o outro. Mas nem sempre o outro compreende. Sabe, a maioria das pessoas não compreende. Estamos ficando muito acostumados com o ritmo frenético que estão fazendo crer que seja a vida. Mas não é. A lua continua girando as suas fases de 7 dias cada uma, dosando as marés, apaixonando os amantes. A sensação de que o tempo está mais rápido é apenas isso, uma sensação. O tempo continua correndo a sua mesma marcha de sempre. Só que tem muitas coisas acontecendo o tempo todo e às vezes pensamos que a nossa alma tem de seguir esse mesmo fluxo. Por exemplo, queremos dizer algo e ter uma resposta imediata sobre o que foi dito – se ela não houver, descartamos com desagradável aquele ou aquela que deveria nos responder… é mais ou menos assim que tem acontecido. Havemos de colher os frutos dessas nossas precipitações se continuarmos assim e não nos dispormos a aprender as leis do tempo, as regras do amadurecimento das coisas da vida. Enquanto o amor se delicia com o doce conquistado no amadurecer da vida, a paixão se lambuza de cica e depois reclama dos seus prazeres serem tão momentâneos e um tanto doloridos. Havemos de aprender a compreender os silêncios, sem querer também supor que sabemos prever tão bem o que o silêncio do outro quer dizer. Pois isso também acontece. Tem vezes que o silêncio é só silêncio e não um outro idioma a ser aprendido. Quando num diálogo a resposta que queremos não vem, começamos a inventar mil suposições do que possar querer dizer o que o silêncio não disse nada. É bom quebrar o silêncio com perguntas, mas se as respostas não forem o que queremos ouvir, paciência… esperemos… ou então partamos pra outros campos, onde os frutos já estejam em tempo de colheita.”